terça-feira, 15 de maio de 2018

após

o dia tinha passado em branco
a gente esquece do que gosta às vezes e o dia passa em branco
sem tesão e um pouco cinza, um cinza meio branco
o dia tinha um passado, mas poucos se lembravam disso
o dia pensava no futuro, tanto que o dia era sempre dia seguinte
o dia parece presente, mas nem aos poucos desembrulha o pecado sem culpa de ser
segredo de estado
de ter estado vazio
de ter passado em branco
de ter sacado o pranto
arma secreta, é segredo!
pouco livre e muito corpulento.
uma pausa, servindo de alento
nas horas de silêncio nota-se o dia falar
umas vezes é bronca, outras um sabiá
cantando que laboram os dias e as noites
sem parar

tem dia que não sabe lidar e morre
tem dia que assopra baixinho e morre
tem dia que é feliz e também morre

um dia outro dia outro dia mais um dia
após após após após
desenvolve!
ele queria ser após, e essa esquiva de ser durante

segunda-feira, 7 de maio de 2018

o que resta

eu sobrei
com potencial desperdiçado e um corpo meio usado
da cintura pra baixo segue o espasmo
da cintura pra cima tão certa quanto incerta
disserto por dentro palavras não inteiras, os assuntos também todos pela metade
o resto de nada deveria ir ao lixo, tenho total confiança no reaproveitamento, mas um medo tamanho de esquecer os materiais coletados no fundo do armário
eu fui sobrando no fundo do armário
algumas parcelas de propósito, mas quase tudo acidental
ano novo vida nova
eu fui sobrando
o que de mim resta não sei se preservo ou deixo acabar
o que deixei pelo caminho não sei se sou eu ou o resto de mim
eu fui sobrando
em cada calçada, em cada gole, a cada passo e cada sapo e cada leão
sobrei nas conquistas e nos fracassos
sobrou um pouco deles em mim também
sobrou um pouco de você e dos amigos
graças a deus, de alguns nada sobrou
o caso é que eu sobrei indiscutivelmente, quase violentamente
era uma conversa simples e todos estavam lá
conversando sobre coisas simples
mas nitidamente eu sobrei