terça-feira, 5 de janeiro de 2010

interior.

A água está suja, mesmo assim eles insistem em afogar as canelas.
É cedo da tarde por enquanto, e eles continuarão lá até envelhecer, pois a água os fascina. Os sorvetes derretem sobre as mãos ao brincar pelo meio da rua e o som dos vidros sendo quebrados pelas bolas é sempre o mesmo, acompanhado de um grito agudo. Todos sabem que é para correr logo após disso.
Terão desapontamentos. Um deles não entende ao ver o pai sair pela porta, mas consegue sentir o choro baixinho da mãe no meio da noite. Todas as noites;
Terão surpresas. Outro descobre aos poucos as delícias que as noites e os becos escondem, dizem que é perdido na vida. Ele sabe que não;
Terão romances. A filha da vizinha que o obrigava a brincar de boneca agora se preocupa com salto alto e virgindade. O vento canta em seus ouvidos enquanto os dois se beijam na varanda. Os amores de varanda são sempre os mais gostosos.
A água não é mais tão fascinante.
Lá fora os bancos vazios sabem que a cidade não pede nada em troca do silêncio e da calmaria, ela se contenta com certos risos que a agitação não consegue arrancar de nós.
Eu vejo troncos e galhos, folhas e o gramado, uma fonte quebrada que nunca ninguem mandará consertar. Uma andorinha. A cada duas horas um ou outro passa de bicicleta. A calma me agonia de maneira insuportável, ainda bem que há o vento. Agradeço com todas as forças por existir o vento.
Continuo observando, mas agora eles podem me ver, com o mesmo boné virado pra trás e o mesmo papo de "sei-oque-faço".
Não há tempo para pensar no que estão fazendo, mas fazem. Nunca estão saciados, a sede de querer não é o bastante, outra sede vem chegando.
Eles já podem sentir parte da liberdade. Eu vejo o primeiro carro: o vento devora todos eles a 140 km/h. O vento até então é o mesmo, ele não envelhece, porém faz você se dar conta de que você envelheceu. A cidade tambem é a mesma, eles não. Sinto que não se importam por ter mudado e não perceberam que há quem se importe.
Bêbados na madrugada sentados na calçada eles se divertem como se fosse o primeiro dia de farra e tudo fosse novo... não era: era alegre assim quase todas as madrugadas. Aquele está namorando a filha da vizinha.
Os pneus de um carro que passa correndo os banha com a água da sargeta, todos riem - um xinga - e naquele exato momentos têm a certeza de que aquilo é eterno.
Seguem por caminhos diferentes. Ninguem sabe o que aconteceu, suponho que alguns se perguntem ao ver a fonte quebrada, porém nunca nenhum chegou ao ponto de molhar de novo as canelas, eles não têm mais tempo para isso. Não direi que suas vidas se acabaram, pois será mentira... apenas não mudarão mais.
Um deles fez do bar sua casa, não suporta aceitar que aquele tempo se foi, assim como seus amores, assim como seu pai.
Outro ignora o fato de que está totalmente sufocado em dívidas de jogo, dizem que é um perdido, ele tem certeza que não.
Alguns são felizes, alguns nem tanto.
A filha da vizinha tem uma casa pra cuidar agora que está casada. O marido tem 35, está na varanda. O marido tem 65, está na varanda. Está sentado na cadeira de balanço lembrando do seu primeiro beijo, das canelas, do sorvete, da calçada. Chega o vento que chicoteia sua face, e ele aproveita como se tivesse voltado a infância, afinal é o mesmo vento. Junto a ele chega a chuva e a água se torna fascinante novamente.

Um comentário:

alinebfg disse...

Oi

você escreve muito bem.Muito intensa a história ..

sew quiser pode add
http://giramundogirassool.blogspot.com/ uma boa oportunidade para trocarmos experiências nessa mundo onde acabei de desembarcar =]

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